klimtiniana

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Flores azuis enfeitam um cabelo desgrenhado de virgem sonolenta.

Ela respira leve como a brisa de um começo de manhã sem nuvem. Repousa lenta como uma doce avó que balança as pernas numa cadeira verde de fio. Sossega. Tímida. Sã loucura do fim.

Seus olhos cerrados em um travesseiro de cores púrpuras é um céu de arco-íris ofuscante, daqueles que já se sabem divinos mesmo sem duendes. Seres nascidos da alucinação dos roteiros adolescentes em fuscas brancos.

Repousa. Quieta e má na sua quietude de virgem.

Pudica não. Santa.

O suave cheiro do vento parece ser ela mesma em um todo que se faz toda. Ela é aquilo. Parada. Nua. Solta como imersa em águas profundas. Sereia de mar. Sereia de chuva. Sereia de sereia colorida com cheiro de baunilha.

Chuva em terra de sol quente.

O cheiro chega bem longe, lá por traz das serras.

E ela voa……………. nítida feito água nova de bacia nunca usada. Onírica. Dançante. Exalando música em cada cor azul de flor em seu cabelo.

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feitiço das águas

Os mais crentes nas coisas da natureza dizem que existem seres encantados que povoam as águas que moram nesse nosso mundo inteiro.  São  bichos de grandes caldas reluzentes, capazes de deixar outros seres inciumados. Lindas caldas furtacor, mais parecidas com arco-iris.

Geralmente ficam sentados calmamente em pedras ou na beira do mar tentando domesticar, com pentes feitos de dentes de baleia, os cabelos revoltos por causa da correnteza das ondas. Insistentes ondas que fazem bailar os corpos esguios das sereias de água salgada…

Meio a um temporal de verão, eis que surge um outro bicho enfeitiçado.  Caiu no mar junto com as gotas de chuvas. Em pedaços. Misturando-se e encontrando-se dentro das ondas espumantes. 

A sereia de água doce foi se formando, se formando… primeiro uns cabelos coloridos, depois uns braços com dedos longos de pianista, e mais algumas formas arredondadas que anunciavam uma calda tão encantada quanto a da companheira  salgada. É verdade que sua cor ainda não era tão furtacor, com cores em tons de rosa e azul, mas tinha um tal encarnado com pitadas de verde escuro encontrado nas águas profundas do sertão. Era uma cor bonita, apesar de inteiramente adaptável ao calor do sol que esquenta os caminhos iluminados do início do continente.

Aqueles não tão crentes quanto os primeiros, enxergariam ao menos a beleza plástica das pinturas coloridas e enfeitadas com adornos de bricolagem.  Telas esvoaçantes. Cores que dançam na mistura de tons. Klimtinianas.

Os bichos encantados, obra de feitiço único encontrado em porto de menino pequeno, se misturam às águas do mar, do rio, das nuvens…. as águas do mundo de águas que pode ser um coração. 

a flor de Diadorim

Certo dia um tal Diadorim vagava no meio do mato procurando um nada que tomava conta de todo ele. Nada grande esse! Um tipo de bicho que é capaz de encher um vazio inteiro de vento…

Perneira de couro de bode e chapéu encarnado desgrenhado do sol. Diadorim saia desmundando o cotidiano caminho como quem procurava um não-sei-quê de atalho no meio dos pés de mangaba. E ele ia assim caminhando em cima do cavalo preto todo empoeirado que nem mesmo parecia montaria de gente que tem cuidado com o que é seu. E não é isso?! Vai ver o bicho que levava Diadorim pelas estradas nem era realmente seu. Não tem nada que é da gente nesse mundo…. As coisas é que se escolhem nossas quando elas acham que devem ser parte da gente.

Assim ia Diadorim, desnecessitando de cada coisa que aparecia no meio do caminho.

De vez em quando tinha uns calangos que serviam de almoço quando do pingo-do-meio-dia e não tinha nem um vintém de água para matar a sede de uma vida toda. Mas vá lá! De sangue e de água é que a gente é feito, por isso que quando falta dá vontade de sair correndo desvestido de vergonha!

No meio de tanta seca que engole bicho pequeno e graúdo, Diadorim apertou o olho que via um pouco mais, fez um jeito com a cabeça e se curvou para ver um mundo de tudo com cara de tudo. Era uma flor branca, rasteira e macia… tinha cheiro de lírio de avó dos outros e cor de alfinim.

O pobre Diadorim, sem nem se perceber tão outro, passou a mão de ressentidos calos recentes nessa forma insegura e forte. Colheu o seu cheiro de surpreendida flor acompanhada e segurou-a por entre os dedos nervosos como quem encontra um ninho de rolinha pequena no olho de uma algaroba velha e retorcida. Ele a encontrou e a flor deu-se inteira em seu perfume voante de passarinho de pétalas brancas.

Diadorim saiu adornado de vida insistente. Ele se salvou de si, reolhando cada pedacinho de mundo da plantinha que cobria o meio do mato. Jardim invadido de casa abandonada. E tinha água, muita água, um açude desses bem grandes com vazante vazando vida. O sangradouro tinha mais de meio metro de lâmina… Tudo em seu devido lugar, até mesmo o que nem tinha lugar antes.

Foi então que o Deus de todo mundo apareceu para o bicho arredio cavalgante. Ele veio em forma de chuva grossa e cegosa, dessas que fazem pingos parecerem açoites de ensinar jumento brabo. O roseano ser  de alma que dizem endemoniada se deixou esmorecer pelas águas das deusas, levando a flor descoberta bem em cima de seu chapéu.

 

Canção à alegria dos fatos

(alegoria do cotidiano)

 

Era um campo verdinho, verdinho… bem da cor de gafanhoto que aparece depois do casamento da raposa. Tinha relva macia molhada de repente por causa de uma nuvem de chuva que surgiu do nada, no meio da noite. Tinha alguns poucos bichos de pêlo curto que insurgiam da madrugada com olhos de fogo. Carro e suas tochas de luz. Tinha, vez por outra, um silêncio que cantava melodias malucas de início de tarde.

Era uma relva de tom verde bem verdoso… de cor de passagem, de alívio e de convite.

No meio do campo tinha uma flor que mais parecia morta que viva, pois olhava para baixo como se procurasse, insistente, os próprios passos. Um campo de flores quase mortas. belas flores de morte anunciada!  O grotesco fim colorindo de verde o tempo sem cor do início da noite… mesmo sendo dia.

Olhando de longe, o horizonte tremia de fervor. Nem mesmo parecia que tinha chuva caída e pingos por vir… Os pássaros, recolhidos em siestas preguiçosas, deixavam de cantar e abriam espaço para a cor das asas azuis de um beija-flor. Bicho rápido e de encanto ligeiro. Volúvel, talvez, em seus encontros efêmeros e desesperados… Bicho de paixão que inebria feito vinho guardado no fundo de uma mala. Passarinho que, de ser tão “inho”, não pesa mais que o suficiente para construir um pedaço de parede.

Ele veio voando, com seu frenesi de agonia que prevê uma morte desejada, e, sorrateiro, beijou a flor de colibri pendente. Ele, que nunca pisava em chão nenhum, pois vivia no mundo caótico e imprevisível das nuvens, bebeu do doce contido na flor, suspendendo-a da terra como em encantamento.

E todo o campo se  fez ainda mais bonito, de um verde tão verde e cheio de vida que mais parecia alucinação de planta encontrada no meio do mato.

Do nada, o próprio nada se fez imenso e a cor saiu pintando tudo como menino pequeno que acabou de descobrir uma caixa de bastões aquarelados. Suaves, delicadas e necessárias cores.

 

da alegre melancolia do novo

Não passou nem mesmo uma hora inteira de um ano que já se previa da mesma forma que o anterior e uma vontade incontrolável de palavra me assalta e me arrebata da cadeira que me deixava sentada até agora.

As pessoas são as mesmas, com os mesmos defeitos e as mesmas virtudes. O menino de detergente e rodo na mão estará no sinal amanhã cedo, da mesma forma que hoje. A calçada estará suja de folhas secas no final da tarde e o gato ficará  deitado como deusa grega olhando o nada. O lixo da festa vai ser posto do lado de fora, com todos os frascos secos e seus paradoxos.

O dia novo deixa de ser novo a partir do momento em que nasce. Tudo volta a ser velho e nos colocamos mais uma vez à disposição da espera.

Fico sentada quieta, enquanto todos levantam e comem comidas coloridas de festa. A louça refinada é lavada especialmente para o jantar e os talheres estão colocados delicadamente em cima da mesa grande de vidro. Frutas e cereais e carnes deslizam entre as flores pintadas na cerâmica branca.

Fico sentada quieta, em silêncio, vendo os perfumes e cheirando as cores das pessoas que comem. Aquilo acalenta e fecho os olhos para ouvir cada boca que come palavras de gosto variado.

Escuto Ray Charles e é perfeito. Jazz parece combinar com essa coisa toda do novo, me fazendo calar e silenciar no olhar.

 

Bem vindo esse novo tão velho!

 

Sempre adorei as velharias…

clariceana

Uma amiga me chama de Clarice.

Devo, realmente, ter algo da escritora… algo que não cala em mim, algo que me perturba, algo que me deixa numa ânsia constante de paixão.

Gosto de sentir o gosto de sangue na boca, nem que para isso precise morder de leve o canto do lábio. Espero um pouco o líquido escorrer devagar e depois me concentro no calor leve que me faz lembrar do que corre nas veias.

Sou uma mulher apaixonada.

Busco uma paixão que mora dentro do meu peito e que pulsa inconstante.

Vivo a permanente espera, tal qual um Ulisses que todos os dias compra flores vermelhas e deixa em cima da mesa enquanto espera uma Lóri que nunca chega. Ainda não é o momento! Ainda não…

Um dia, quando for o momento, simplesmente a mulher entrará pela porta, verá as flores e saberá o que sempre soube. Aquelas flores vermelhas, frescas e aveludadas, já são suas antes mesmo de serem colhidas. É o natural. É o esperado. É a inquestionável certeza.

Enquanto isso, Ulisses prepara e espera………………………. ele degusta cada olhar pela janela, cada página marcada do livro que repousa em cima da mesa, cada música incompreensível que toca no rádio. Ele espera com a paciência e o silêncio de um gato à espreita, deixando a ansiedade do desejo crescer involuntário dentro do estômago.

No outro dia pela manhã as flores estão um pouco murchas. Ele levanta cedo, abre a porta e sai pela rua.

Voltará com mais um ramalhete de flores… Agora ainda mais vermelhas porque são novas e perfumadas.

A paixão se refaz.

Eu, mulher viajante de mim, deixo renascer o vermelho desbotado.

Renovo a minha casa com flores.