àqueles que vivem dentro e fora

Na casa do gato branco morava um menino gordinho, de cabelos encaracolados e um jeito todo doce de melhor amigo.

A mãe costurava divinamente e o pai, um homem de mais estrada rodada, vivia contando suas histórias de quando levava luz para o interiorzão.

O menino gordinho era bem cheio de buchechas e suor escorrendo pela lateral do rosto. Sempre tinha um jeito de “pai dos outros” ou de “irmão mais velho”, o menino gordinho tinha um nome roseano como são os nomes criados dos moleques que nascem onde ele nasceu: uma França em terras de gibão e carne de bode. Ildo. Tão iguais e tão diferentes de seus iguais! O menino gostava de música quase tanto quanto das pessoas que preenchiam sua vida. Ele pegava tampa velha de alumínio e vários talheres de formatos diferentes e tocava, experimentava, suava um suor de notas musicais num barulho que fazia o vizinho franzino tapar os ouvidos frágeis.

Tinha que ser instrumento de gente grande, porque ele também era grande. E ele ficava imenso atrás daquele monte de prato… ele ficava do tamanho de um gigante anjo de sinos badalantes.

Sonhando o menino foi ficando menos menino e, cada vez mais, aquela coisa de sair batendo em lata de todo tamanho foi virando coisa de menino que não era mais menino. Passou a ser escolha de vida de adulto corajoso. Coisa de gente que tem certeza do caminho que quer seguir.

O gato de pêlo branco e fofo  ficava em cima das caixas e se enrolava nos fios do retorno. Pulava no pedal. Se aninhava devagar na música barulhenta desses meninos que gostam de rock.

E foi sempre assim. E sempre será assim, desde que o mundo seja mundo nas terras das pessoas.

Tem gente para tudo, inclusive para colorir com música a alma dos pobres mortais…

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depois do “mas”

Para não alardear…

Camisa branca com gola ruída do tempo. Um trancelim de metal no pescoço e um fone de ouvido. Segura uma flor de croché vermelha, dentro de uma caixa transparente. Deve ser um presente!

Gesticula…

Assusta…

Pede um suco de açaí com banana.

Oh, amor. bom ouvir sua voz… Por que você diz isso assim? Olha que fico sem saber como agir… escutar você, toda suave assim………………………….. Sobre a entrevista? Foi boa! Mas nada disso importa… emprego não importa… onde não imposta. O que me importa é você! Nada me faz abrir mão de você. Nada. Só você! Tenho uma flor… o presente que prometi. Ha ha ha, assim você faz meu coração parar… não, não tem emprego. Vivo sem emprego, mas não vivo sem você. Ah, linda! Fico assim todo bobo com esse seu jeito. Não, amor, quando eu trabalhava ainda era você que me fazia ficar assim… hummmmmmmmmmm meu coração… vai explodir. Pode explodir? Na frente de todo mundo? Tem uma flor para você, mas não tem emprego. Largo tudo por você. É o que importa…………………………. Falando assim não consigo tomar meu açaí… não, não… pode falar. Estou ouvindo. Pode falar. Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh, adoro ouvir isso, assim baixinho………….. também sinto. moça, pegue o dinheiro! Aqui! Estou indo, amor. Volto a…………..

E ele sai.

Parece que está falando ao vento, rindo contido feito louco, escondendo um segredo que acha que ninguém sabe. Ele vai em busca daquela voz. Leva uma flor vermelha de croché guardada numa caixa transparente. Conversa com o vento, rindo, louco…

Coração cheio, transbordando suco roxo de açaí.

sequência

De repente a gente sabe que tudo não é tão de repente assim.

 

Uma menina vai devagar e sobe a calçada com cuidado. Coloca o pé direito. Dizem que dá sorte! Depois o pé esquerdo sobe, acompanhando o caminho andado do irmão de passos.

O lado gauche nunca quer acompanhar o caminho trilhado. Fato…

No entanto, é importante ter uma companhia para as noites escuras e sem lua, quando a gente dá passos sem saber onde pisar porque não tem luz. Assim, essa coisa esquerda, que se rebela em pés que sobem depois a calçada, aceita o caminho acompanhado de uma companhia silenciosa. É preciso. Necessário deveras porque sozinho um pé não caminha, apenas salta, deixando de tocar o chão por segundos que podem durar uma vida.

E vai, um pé depois do outro. Um indicando o caminho que o outro deve passar. Tem algo que os une, uma unidade em corpo que se divide em duas partes independentes, que querem coisas diferentes, que seguem por estradas diferentes… em sonho… em caminho de pedras… em vielas líquidas.

Eles tem calos. Partes grossas de pisar em um chão sem forma.

Pé sem molde, que aumenta feito de gigante para esconder a luz do sol de cima das nuvens, que cabe em sapato de moça do oriente quando precisa colorir com bordado vermelho. Pé que cabe em qualquer sapato.

 

E tem hora que esses pés cansam e a menina senta. Respira. Transpira, deixando pingar águas de dentro dos olhos.

 

Esse corpo de uma coisa só bem que podia ser dividido, deixando os dois amantes contrários livres para seguir seus caminhos.

 

Silêncio em si, novamente. Impossível dividir o que é um todo.

da leitura do mundo de dentro

Um dia, as palavras disseram sinceras e impuras: necessário é reconhecer-se incompleto.

Essa falta é vasta quando não se sabe exatamente decifrar o sentimento lacunar que nos faz morrer dentro de um túnel de toca de coelho. A gente fica olhando o abismo da beirada do buraco e, por mais que queiramos que todos pensem que não vamos pular, assim disfarçada e teimosamente, deixamos o pé escorregar bêbado de vontade. A gente cai. Desastrosamente. Engraçadamente, por vezes. Indecentemente.

É uma descida trôpega. Ficamos como pedaços de carne esquecidos numa carroça de burro, meio a um caminho de tijolos faltosos. Balanço e fendas abertas. Manchas de sangue por causa das batidas no lastro. O embrulho, todo amarrotado, vai rasgando devagar, deixando à mostra os pedaços vermelhos de carne.

O buraco fica pequeno para o tamanho do vazio que ele contém.

O buraco sem chão. Sem nada onde pisar. Sem água no fim, como um poço seco.

Um poço… por que não um poço? Contendo água. Suja. Escura. Um filete apenas, capaz de afogar um verme que nada docemente na superfície do líquido.

 

A gente pede licença ao buraco, coloca luvas de camurça cor de barro e empurra com a força de um gigante as costas minguadas do espectro que está espreitando o escuro convidativo do desconhecido.

 

E cai.

Cai…

Cai…

No infinito provável do inconsciente.

branco (trans)lúcido

Verme de cabeça branca e corpo de coelho

Comendo devagar as entranhas de um pássaro

 

Cospe pele

Cospe pêlo

Cospe cuspe de veado novo

E pedaço de capim

 

Verme de cabeça branca sem cabelo

Vestindo noite com camisa rasgada

Jeito de andante sem pernas

Caminha devagar subindo a estrada

 

Ventas

Vozes

Vermes da noite

 

Sem lua

Sem casa

Sem nada.

Açougue

Chega um freguês, vindo da rua de cima, e diz:

– Por favor, um pedaço da parte dianteira.

Depois chega o gordo, dono da banca de jornal, e, pensando no almoço de domingo, pede:

– Você coloca para mim o lado com capa de gordura? Quero fazer um churrasco.

O pobre menino, com as mãos ainda vermelhas de sangue, entrega calado os dois pacotes de carne recém cortada. Aos poucos o coração dividido por arma branca vai saindo nas mãos de cada qualquer um que pede um pedaço do músculo, antes batedor de inteira vida.

Difícil olhar as mãos escorrendo de tanta vida…